Desmistificando a economia e praticidade do Eurail

Qualquer leitura de um relato de viagem econômica pela Europa antes da queda do muro de Berlin vai incluir duas coisas: hostels credenciados pela HI e passes de trem Eurail ou Interrail.

Sendo um infante à época, não tive contato com as técnicas de publicidade do turismo da época. Fato é que 20 anos depois, deixaram de ser a opção mais interessante para a maioria dos que viajam à Europa mas não fazem parte do jet set. O Eurail Pass (para não residentes na União Europeia) e o Interrail Pass (para residentes na UE) continuam com um share of mind incrível entre viajantes brasileiros. Os passes estão para transporte na Europe como Kolynos para pasta de dente: a maioria de quem pensa em viajar à Europa pela primeira vez pensa que passes de trem são uma alternativa razoável a ser considerada.

Se isso é ótimo para o consórcio ferrovário que vende os passes, o mesmo não se pode dizer das vantagens para você. Rick Steves, famoso guru americano de viagens para a classe média, conta como viajou em 1976 para a Europa com um passe de trem ilimitado para 2 meses pagando menos de  US$ 300. Sozinho, Rick Steves foi quem mais popularizou os passes de trem como a “good value option” (expressão difícil de traduzir,  tem o sentido de “barganha que vale a pena”) no mercado americano de viajantes de classe média e universitários.

por: Eurail (website)

Hoje, o “passe ilimitado europeu” é chamado de Global Pass – continuous validity. É vendido em versões de 15 dias a 3 meses e permitem o uso de trens durante todo o seu período de validade em 23 países. Há também os passes flexible validity que permitem o uso de trens em 10 ou 15 dias durante um intervalo de 2 meses.

A ideia parece sedutora: você chega na Europa com passe comprado, e não precisaria mais se preocupar com nada em termos de transporte. Ao invés de ficar preso com um itinerário, você pode decidir seu roteiro a cada dia. Liberdade completa, a partir de € 358 (Eurail Youth 15 days continuous)! Uau!.

O que a propaganda e a mística em torno do Eurail não dizem é o seguinte:

1. Já passou dos 25 anos? Só de primeira classe…  Maiores de 26 anos só podem comprar passes de primeira classe. Isso significa que a opção mais barata de Eurail de uso ilimitado é de €549 (uma pessoa) ou € 467 (duas pessoas) para passe de 15 dias.

2. É preciso pagar taxas extras e obrigatórias de reserva. Não basta ter o passe na mão: em muitos trens, é preciso paga reserva extra. Em um passado distante, isso só acontecia se você quisesse usar vagões-cama mais confortáveis em trens noturnos. Atualmente, quase todos os trens de alta velocidade exigem reserva paga à parte. Em alguns países, como Itália, qualquer trem não regional exige reservas. Antes que você pense “tudo bem, até prefiro trens mais lentos para economizar e ver a paisagem”, lembre-se de que uma viagem Roma-Milano em trens regionais (sem exigência de reserva) demora 8h40 (um trem de alta velocidade leva só 2h50). O Eurostar London-Paris tem uma taxa de reserva para portadores de Eurail de € 89, enquando rotineiramente se acham passagens avulsas com desconto no mesmíssimo trem a € 50…

3. Certos trens tem quotas para passageiros usando passes.  Em letras miúdas no site do Eurail, conta a seguinte informação:

In the high-season (May – September) and during European school holidays we advise you to reserve as far in advance as possible. Some popular high-speed trains have a limited allocation of seats for Eurail travelers, including the French TGV and Thalys trains, Artesia de Jour (Paris – Milan) and the Spanish train Alaris.

Em outras palavras: várias das rotas essenciais em uma viagem que cubra vários países têm limitação de assentos para usuários de passes Eurail. Mesmo que o trem tenha assentos vagos, se a quota (não anunciada publicamente) de assentos para passes estiver preenchida, você só viaja naquele trem pagando tarifa cheia de último minuto. Quando o passe poderia ser mais útil (viajem de última hora em alta temporada), seu uso é restrito.

4. A menos que você seja um geek de transportes, o objetivo é passar menos, e não mais tempo dentro de trens.  Trens são uma relativa novidade para brasileiros, acostumados no máximo a um metrô lotado ou ao eventual passeio de “Maria-Fumaça”. Não se iluda: não há nada de charmoso ou romântico em passar horas e horas do seu dia (e menos ainda da sua noite) dentro de um trem. O espaço para pernas é generoso comparado ao do avião, mas não é assim um deck de piscina. A comida varia entre os padrões restuarante caro e medíocre a comida de avião fria. Então, seu objetivo é usar meios de transporte de forma eficiente, não ficar fazendo contas do tanto que você pode usá-los baseado na duração do seu passe de trem! Seria o mesmo que você comprar um bilhete de Metrô e ficar extasiado pelo fato de poder passar o dia inteiro de estação em estacão sem pagar mais nada!

5. Por já estar pago, o passe de trem te induz a evitar aviões e desperdiçar tempo.  Uma vez pago e  validado, o passe de trem funciona na mesma lógica de qualquer serviço pré-pago: o uso explode e nem sempre da forma eficiente. Na churrascaria, muita gente exagera na carne depois que já decidiu pagar um preço fixo. Cruzeiros são outro exemplo. Ao comprar um passe de trem, será grande a tentação de você decidir fazer de trem longos percursos que são melhor percorridos de avião como Paris-Roma (9h de trem), Berlin-Venezia (14h), Lisboa-Madrid (8h50), Milano-Barcelona (12h45), seguindo a lógica “se já paguei pelo passe e posso andar ‘de graça’, para que gastar dinheiro com avião?“. Essas contas acabam ignorando, quase sempre, o custo extra de perder um dia de viagem dentro de um trem para “economizar” o custo do bilhete aéreo.

6. Suas reservas de hospedagem provavelmente já serão fixas.  Em tempos de reservas online (e cada vez mais pré-pagas) de hoteis, apartamentos, museus e até restaurantes; a ideia romântica e nostálgica de viajar de forma econômcia pelas capitais da Europa, sem rumo e direção, resolvendo de manhã onde vai dormir na mesma noite, já morreu no choque de realidade dos sites de hospedagem. Nem é preciso pensar no transporte entre cidades distintas, ofertas tentadoras de hoteis em tarifas não-reembolsáveis, museus que exigem reservas com semanas de antecedência, tudo conspira contra a ideia de zanzar de um lado a outro do continente a cada 3 dias. Com as datas em cada cidade fixas, a ideia de flexibilidade no transporte morre. Se você quer deixar sua viagem menos engessada, como o Ricardo Freire sempre afirma, o segredo é montar bases ao invés de recorrer ao pinga-pinga. Nesse sentido, a flexibilidade proporcionada pelo Eurail é ilusória

7. As principais razôes de existir do Eurail sumiram do mapa. Nas décadas de 1970 e 1980, passes Eurail experimentaram seu apogeu. Todo mochileiro  tinha o seu, de segunda classe. Casais e adultos usavam passes de primeira classe. Agências de viagem (e não me refiro às virtuais) ganhavam um bom dinheiro de comissão vendendo passes. Afinal de contas, a Internet não existia, ligações telefônicas “DDI” custavam absurdamente caro, e compras remotas internacionais com cartão de crédito, complicadíssimas ou impossíveis. Naquele contexto, a existência de passes fazia todo o sentido. Hoje, não mais.

8. Preços de trem seguem, agora, o modelo dos preços de avião. Em trens de média e longa distância, cada vez mais empresas lançam promoções ou um sistema de venda com preço variável, depenendo de antecedência de compra, horário e dia da semana. Isso significa que, para quem planeja com antecedência, é quase sempre possível encontrar bilhetes avulsos promocionais de trem à venda, com preços muito atrativos em relação a passes de trem.

Como saber se no seu caso, específico, vale a pena comprar passes de trem? Simples: faça todo o planejamento da sua viagem sem considerar a possibilidade do passe, e sim tarifas descontadas de trens. Ao final, dê uma verificada para ver se o custo dos passes + reservas compensa em parte ou todo seu itinerário. Raramente os passes compensarão financeiramente.